sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Chorando o leite derramado

A repercussão do caso de preconceito extremo e xenofobia contra nordestinos que se alastraram no Twitter e outras redes sociais pós-eleição traz a indignação, esperada e devida, da parcela lúcida da sociedade. Ao que parece, para nosso conforto, ainda a predominante! Mas, não creio que o fato em si seja um episódio isolado. Relembrando o caso, veja o vídeo abaixo que mostra as postagens, por sinal de baixíssimo nível.

video


Para não irmos muito longe, recentemente tivemos o famoso caso da estudante Geisy Arruda, hostilizada na faculdade Uniban por causa “da saia”. Ou o recentíssimo “Rodeio das Gordas”, da Unesp. Usei estes dois exemplos porque também vieram de São Paulo, supostamente estado mais rico e ‘desenvolvido’ do país. Porém, há inúmeros outros, espalhados e aparentemente desconexos! E pelo mundo! A França, quem diria, não andou expulsando ciganos outro dia?

A mídia só mostra algumas, e na verdade nós mesmos damos atenção a uma parcela ínfima das atrocidades do mesmíssimo naipe, que estão por aí, a toda hora! As pessoas não fazem nem questão de se esconder. Embora alguns dos perfis sejam obviamente falsos, outros não. O sujeito fala a atrocidade, mostra a cara e assina embaixo! Com o mínimo de paciência acha-se coisa muito parecida no Orkut, espalhado na rede, por todo o canto...

A diferença que vejo, neste episódio específico da tag #nordestisto, lançada pela agora ‘célebre’ dona Mayara Petruso, foi a associação do fato à recente campanha eleitoral. Não me admiraria nem um átimo se a mesma moça, após uma desculpa esfarrapada qualquer ao vivo na TV, fizer um sucesso frívolo e posar numa revista masculina, por exemplo! Não foi assim com a outra tal Rosenery que jogou o foguete que originou o episódio Rojas?

Também não tenho a menor dúvida de que a campanha eleitoral influiu, claro! As postagens mostram pessoas insanas atribuindo a derrota de #serrarojas ao povo nordestino, e a estes dirigindo seu indescritível ódio!  Já a mídia corporativa, participante ativa da campanha de Serra , insuflou o preconceito! Ou melhor, insufla, dioturnamente! Quer outro exemplo: fácil, clique aqui!

Quando Serra se aliou ao que há de pior e mais obscuro na direita e deflagrou sua campanha subterrânea, eu mesmo postei no Twitter, alguns dias antes, e está lá, gravado, que algo de ruim iria acontecer. Não precisava de bola de cristal. Lembremos do que foi esta mesma campanha.

O telemarketing do mal. Panfletos religiosos explorando outro preconceito, o do aborto, quando tudo indica que sua própria esposa fez um (uma das características mais marcantes de todo preconceito é a hipocrisia!). Onda de emails contra Dilma vindo até de redutos nazistas. A enorme farsa da bolinha de papel com direito ao apoio da #globomente e destaque no Jornal Nacional. Talvez um dos grandes ícones destes tempos de bestialidades generalizadas seja o vídeo do fim do mundo cujo link na rede era o sítio oficial da campanha de Serra.

Porém, além da indignação, que também sinto, minha preocupação maior é de outra natureza. Enquanto professor, com décadas na rede particular, servindo à elite ‘educada’, não fiquei sabendo pelo jornal: durante anos e anos presenciei essas mesmas atrocidades, ao vivo, em sala de aula! Além do meu depoimento, e minhas palavras, à época, a verdade é que pude fazer muito pouco! Tenho a nítida sensação de que uma parcela nada desprezível destes adolescentes e jovens, vivendo enclausurados em suas ilhas de riqueza e futilidades, trazem do berço estes sentimentos e preconceitos arraigados, de fácil percepção e de dificílimo combate! Nunca vi, como também postei, tanto jovem reacionário e completamente alienado dizendo tanta besteira, pensando de forma tão distorcida da realidade, agindo como um bando de torcedores espancando um adversário na saída do jogo, quanto nesta campanha. E é o mesmo tipo de jovem que há anos atrás incendiou (!) o índio Galdino ou espancou a empregada (cidadã, acima de tudo, como eu ou você!) 'achando que era prostituta' (cidadã!)! É recorrente! E sempre chocante!

Cada vez mais, como já dizia o sábio Paulo Freire, estou convencido de que não existe educação neutra. Agora que no CEFET/MG tenho mais liberdade não só de expressão, porém principalmente no trabalho em sala, vou radicalizar muito mais em associar conhecimento à cidadania! Ora, bolas! As duas coisas são absolutamente indissociáveis!

Na rede particular o que se fazia era, no máximo, campanhas ecológicas breves, projetos de filantropia focalizados, discussões absolutamente superficiais sobre o que é mais do que consenso do chamado “politicamente correto”, e nada além! Cheguei a trabalhar em escolas onde foi explicitamente proibido qualquer manifestação política dos professores durante as campanhas (o dono pensa que ainda vive na Ditadura!). A escola mesma, desde a infância, promove a exclusão e o preconceito! Aquelas aparentemente inofensivas rifas de ‘Reis’ e ‘Rainhas’ das Festas Juninas não são mais do que a consagração do poder econômico! Criticadas há décadas, todo ano ainda vejo isto! Crianças são constrangidas a vender bilhetinhos e ganha quem vender mais! Outra enorme aberração são os desfiles: garoto e garota escola fulano de tal! Na era da inclusão, alguns se fazem de cegos ou realmente o são ao não perceber que imediatamente quando se classifica alguém como o ‘belo’ se exclui o outro como o ‘feio’! Como, aliás, se isto fosse um critério objetivo, diga-se de passagem! E não, e sem nenhuma sutileza, a conclusão bastante óbvia de que tais práticas, muito arraigadas, não passam de uma legitimação do próprio preconceito por parte da escola! Por mais chocante que pareça!

Embora seja uma crítica pontual, para quem já caminha para 20 anos dentro de sala, sem me basear em nenhum trabalho científico, parece-me muito claro de que a escola, longe de cumprir seu papel de educar para cidadania, em muitos casos age justamente ao contrário: deseduca! Até corrobora, justifica, maquia, legitima o preconceito e a desigualdade! E, no caso da rede particular, não por acaso, mas visando atender ao gosto do freguês, que é seu cliente! Público que a escolhe justamente por defender esta mesma ideologia!

Quanta gente das classes alta e média não tem medo de que seu filho “se misture” com gente comum na rede pública? O mais curioso é que isto só vai até o Ensino Médio! Na Universidade, querem é a pública, federal, e brigam na justiça contra o ENEM, as cotas para escola pública, os bônus para negros, enfim, a política inclusiva que o governo Lula tanto promove e incentiva. É disto que estamos precisando: inclusão! Eis aí um dos maiores defeitos da Educação Particular: ela exclui, e separa! Divide e desagrega, como se fôssemos de mundos diferentes!

Saiu o Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU, e o Brasil continuou avançando, graças ao governo Lula nestes 8 anos. Negar isto é negar a própria história!

Mas, também, não podemos negar que Educação, bem como desigualdade de renda, são nossos calcanhares de Aquiles! Média de 7 anos de escolaridade, para um país como o nosso, é vergonhoso! Sem contar que a qualidade destes sete anos, em muitos casos, é bastante questionável! Mostrarei isto em breve numa postagem que estou preparando.

Realmente acredito, e dei meu voto em Dilma, pelo compromisso que assumiu em melhorar a Educação. E isto passa por investimento, aumentando o percentual do PIB, salário sim, pois sem pagar bem não atraímos jovens talentos ao magistério, e capacitação dos professores que já estão aí.

Sem Educação, não tenho esperança... Continuaremos a ver casos como estes, escabrosos, a todo dia, a toda hora! Como está, o preconceito não é localizado:  prospera! E só não vê quem não quer!

Quando já havia até postado, o presidente Lula fez este pronunciamento abaixo. Está com algum problema no som, mas legendado, também. Pessoa de sensibilidade aguda que ele é, observe que ele também toca no tema do preconceito. Certamente, percebendo a importância de combatermos esta mazela, por todos os meios!


Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto. Sua sensibilidade e senso crítico faltam à maioria das pessoas.

    A questão do preconceito é importante e delicadíssima de ser tratada e, mais ainda, de se modificar comportamento preconceituosos. Mas não é impossível! Professores como vc têm feito muito para a construção de valores mais justos e que prezem pela tolerância.

    Abraços!

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